A cultura cristã está impregnada de certa generalidade em torno do amor e o perdão incondicionais, seja de Deus para com os homens, como também entre os homens. E acredito ser uma consequência, influência da literatura calvinista. E cristãos que não são monergistas (amor, perdão, salvação, dependem exclusivamente de Deus) e sim sinergistas (Deus e o homem cooperam para salvação humana), no embalo pregam e ensinam acerca do amor e do perdão incondicionais, sem considerar outros requisitos no processo da aplicação do perdão.
Em Coríntios 13 destaco duas
características do amor ágape:
Não é leviano (I Co 13.4).
Não é indecente (I Co 13.5).
O tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta de I
Co 13.7, significa aceitar tudo? Creio que não, pautado em I Co 13.4-5.
“Ser leviano é proceder
sem bases verdadeiras, é ser hipócrita, maldoso e irresponsável, é aquele que
tem comportamento volúvel, que age com insensatez. O indivíduo leviano é uma
pessoa fútil, medíocre, não tem noção do que é prudência, sabedoria e
ponderação, transmitindo a imagem de pessoa irresponsável” (www.significados.com.br – Pesquisa
em 23/03/2024).
“O indecente age sem
pudor moral; oposição aos bons costumes; falta de respeito. Obscenidade;
comportamento ou dito obsceno, vulgar, sem moral ou decência” (www.facebook.com.br
– Pesquisa em 23/03/2024).
Um amor que nada exige, sem
condição nenhuma, é um amor fútil, ordinário e sem valor. E certamente esse não
é o amor de Deus.
Uma característica marcante
do perdão - É ser terapêutico, restaurador, e via de regra, passa
pelo caminho da confissão, do arrependimento, da reconciliação e mudança comportamental.
O perdão é a ponte em
construção por onde vamos passar. Todos nós carecemos de perdão e liberar perdão.
O modo de perdoar, é como Deus
nos perdoou em Cristo (Ef 4.32), sem reservas e não lança em rosto o passado.
Deus é perdoador e nos exorta,
confronta-nos a perdoar (Mt 6.12,14-15). Ele perdoa as nossas ofensas assim
como perdoamos aos nossos devedores.
A misericórdia de Deus é de
eternidade a eternidade sobre aqueles que o temem, e sua justiça sobre os
filhos dos seus filhos (Sl 103.17-18). Logo, de certa forma, não é genérica.
Pv 28.13 – “O que encobre as
suas transgressões nunca prosperará; mas o que as confessa e deixa alcançará misericórdia”.
Níveis do Perdão
De Deus para com o homem – É
pela graça de Deus, a base é o sacrifício de Jesus na cruz. Está condicionado
ao arrependimento e a fé humana (Mc 1.15; Ef 1.13; Hb 4.2). A graça de Deus atua
desde o convencimento pelo Espírito no ato humano de atentar para ouvir a voz
de Deus. Mas, o indivíduo precisa ouvir com interesse e atenção (Jo 7.37-39). É oportuno realçar aqui que Deus nada deve aos homens, em nenhuma área, no tempo e espaço.
I Jo 1.9 – “Se confessarmos os nossos pecados, ele é
fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça”.
Certo pensador afirmou: “O filho pródigo perdeu
tudo, menos o pai”.
Entretanto, o que fez ele para não perder o pai?
1.Caiu em si, viu a besteira
que fez.
2.O pai não foi atrás dele.
Ele arrependido voltou para casa.
3.Veio humilhado. Queria ser
pelo menos, um trabalhador do pai.
4.O pai o restaurou e o outro
irmão não compreendeu o amor do pai.
5.O filho que estava em casa
com o pai, é um exemplo de quem tinha de tudo e não sabia usufruir do que estava em mãos, não era grato, nem comemorava as vitórias, via no pai um patrão, não o seu pai.
6.E nessa parábola, como o
pai é uma figura de Deus, é o texto bíblico onde encontramos "Deus
correndo" para acolher e restaurar.
7.Assim é o amor de Deus para
com a Humanidade. Chama-a ao arrependimento para restaurar, mudar o viver.
O perdão entre irmãos – Depende de reconhecimento da ofensa pelo culpado (Mt 18.15-17). E perdoar quantas vezes for necessário (Mt 18.21-22), havendo mudança de atitudes.
O perdão entre pessoas fora do convívio – Houve um fato (uma briga de trânsito, um aborrecimento em lugar qualquer...), ocorreu a ofensa, e tanto o ofendido como quem ofendeu seguiram na vida, não há uma convivência permanente. Nesse caso se libera o perdão, deixando para trás aquela experiência negativa, não fica preso ao passado, joga fora a farpa da alma, independente do ofensor reconhecer a falta cometida. E não é de difícil aplicação. Todavia, alcança o fim terapêutico como nos demais níveis do exercício do perdão. Do contrário, tende a juntarmos na alma raízes de amarguras.
O exercício da misericórdia. É
bíblico que pela graça de Deus, recebemos o que não merecíamos, mediante a fé,
para salvação. E pela sua misericórdia, Ele evitar cair sobre nós o que merecíamos,
entre tantas fraquezas e erros. De modo que, o exercício do perdão entre os
humanos tem uma relação com a prática da misericórdia no cotidiano (Tg 2.12-13).
Mateus 7.2 – “Pois com o critério com que vocês julgarem vocês serão julgados;
e com a medida com que vocês tiverem medido vocês também serão medidos” (NAA).
É uma verdade de fato, as pessoas mais suscetíveis de nos ferir, magoar, decepcionar mais profundamente, são as que estão próximas de nós no dia a dia, a quem amamos e temos uma relação continuada de estreita confiança.
O perdão em família, entre cônjuges – Analisando a infidelidade conjugal, depende do reconhecimento de quem causou e se ajustar, deixar o proceder reprovável. Há uma queda moral no embrolho.
No meio cristão feridos são aconselhados a aguentar traições maritais, violência doméstica e por
anos, sem arrependimento do ofensor e infiel, na esperança de recuperar o
casamento.
Diz o ditado: “Pimenta nos
olhos do outro é refresco”.
Como a sociedade é machista, raramente
ocorrem do cônjuge feminino para com o masculino.
Em que pese testemunhos de
restauração, parece-me mais falta de amor-próprio, subserviência indigna, casos
de dependência material subjugante, a vida real espiritualizada por profetadas,
etc.
Nas Escrituras não encontramos respaldo para manter, sustentar a aliança matrimonial de qualquer jeito. Separação é frequente. Mais complexo é identificar quem faz jus a um novo casamento sem incorrer em transgressão ao padrão divino. Mas, é outra discussão.
Há sim casos em que se permite o desenlace e o novo casamento. Seja por infidelidade, morte do cônjuge, abandono do lar (é violência doméstica em espécie – I Co 7.12-15) e tantas outras formas de violência e abusos no lar. Os casos que Paulo listou não foram exaustivos.
Penso que quem "lutar" pela manutenção da união conjugal que o faça por fé e com dignidade, não como preso a uma masmorra de humilhação e lágrimas. Todavia entendamos, também passa por uma decisão pessoal, sentimentos de perdas recíprocas.
Em matrimônios destruídos, há
também os aspectos subjetivos da culpa, outros de foro íntimo, erros na escala
de valores que não nos cabe levantar.
E em se tratando do perdão nessa seara, é impraticável sem arrependimento e mudança sincera.
Um caso experimental narrado - Conta-se
também um episódio de um membro da igreja, que levou ao seu pastor uma
infidelidade no casamento e arrependeu-se, mas a esposa optava pelo divórcio.
Depois do aconselhamento pastoral em conjunto, ela declarou o perdão ao esposo.
Porém, o marido iria experimentar da mesma dor e do veneno da traição. O pastor
reiterou a necessidade do verdadeiro perdão e foram para casa. O pastor foi
orar pelo casal. E Deus lhe revelou que iria recolhê-la, pois ela havia
desrespeitado a sua autoridade espiritual implícita no pastoreio. O pastor
insistiu na intercessão. Os dias passaram, aquela jovem senhora, adoeceu e partiu.
Hb 12.5-11 - Pais complacentes em demasia - Estes não disciplinam os filhos, passam a mão por cima dos seus erros e pecados, por trás de uma dissimulação fajuta e desleixada. E as vezes se tornam cúmplices de seus pecados. E pagam alto preço. É bíblico: O mundo espiritual prevalece sobre a realidade da dimensão material e temporal.
O perdão no Ofício Ministerial – É uma situação em particular, pois vai depender da gravidade de cada caso. E em verdade, pelas Escrituras, há pecados mais gravosos que outros. E inclusive no efeito e na dimensão do escândalo que gerar. Os que lideram, via de regra são mestres, na prestação de contas terão juízo mais severo (Tg 3.1).
Aqui é relevante ressaltar o ditado “dois pesos e duas medidas”. É uma expressão que indica um ato injusto e desonesto, algo feito parcialmente. Ou seja, está relacionada com situações similares tratadas de formas completamente diferentes, seguindo critérios diferentes e à mercê da vontade das pessoas que as executam.
O que se tem observado é que, na falta cometida, para se levantar vai depender da proximidade ou distância da cúpula da liderança e julgadores.
Vimos então, existem níveis na aplicação do perdão bíblico, seja na esfera divina
ou humana.
A Psicologia moderna nessa área pouco ajuda na medida em que busca a parcialidade do homem consigo mesmo. Apresentam-se “n” justificativas sociais e psíquicas, menos os humanos assumirem suas responsabilidades. Eis a razão porque os presídios estão cheios de maus elementos e a grande maioria se declaram inocentes.
William
Saroyan: “Todos os homens são bons, num mundo mau – como aliás cada um de nós
sabemos muito bem”.
Enfim, o propósito dessa postagem é refletirmos nas ministrações em torno do perdão bíblico, onde ele é enfatizado e o modo como perdoar. Entretanto, fica um tanto “romantizado” enquanto pouco se fala da necessidade da confissão, arrependimento, correção de conduta do ofensor, quem feriu para que ocorra restauração e reconciliação.
Que o Senhor nos conceda mais da sua graça e misericórdia no exercício do perdão na caminhada cristã. Amém!
Por Samuel Pereira de Macedo Borges
Bacharel
em Direito e Teologia
Natal/RN,
26/05/2024.