Observa-se que alguns textos dos evangelhos têm sido utilizados isoladamente para atestar a predestinação incondicional para condenação, na linha de pensadores puritanos e reformados. Porém, são sem consistência bíblica e teológica.
Lucas 4.14-22 - Registra que estava sobre Jesus a virtude do Espírito, ungido para evangelizar os pobres (humildes), enviado para curar os quebrantados de coração, apregoar liberdade aos cativos, dar vista aos cegos, a pôr em liberdade os oprimidos, a anunciar o ano aceitável do Senhor...). E o Espírito a Ele, não lhe foi dado por medida, mas de forma plena, ainda que em carne (João 3.34). Há os descuidados no exame da Palavra que aplicam este texto a todos os crentes, a pregadores vocacionados, erroneamente.
João 20.30-31 – No evangelho de João, a
ênfase era demonstrar, revelar que Jesus era o filho de Deus. E no mesmo
evangelho, Jesus anuncia a promessa do Espírito Santo, que passaria a atuar
diretamente no contexto Igreja, pois seria dado à Igreja Cristã (Jo
14.16-17,26), para o novo momento (Jo 15.26;16.7-15), após a sua ascensão.
João 1.15-37; 5.33,36 - João Batista, o
seu precursor.
João 10.41-42 - O testemunho de João
Batista se cumpriu cabalmente na vida e ministério de Jesus.
João 10.36-38; 11.27,41-42 - Jesus, o
Filho de Deus enviado do Pai.
Mateus 15.21-28 – Primeiro, enviado as
ovelhas perdidas da casa de Israel (Vv.24).
João 1.11-12 – Veio para os seus e os
seus não o receberam.
João 4.22 A salvação vem dos judeus –
Todavia, não é propriedade exclusiva dos judeus (Mt 24.14; Lc 3.6; Atos 10.34-36).
João 4.42 - Nas palavras dos
samaritanos, Jesus “o salvador do mundo”.
Mateus 16.2; 23.37-39 – Jesus, o
Messias que havia de vir, é rejeitado (Jo 5.38-40;7.37,45). Cumprem-se as
profecias a este respeito. Ao mesmo tempo, Ele cumpre a sua missão: Forma o
embrião da sua Igreja (na chamada específica dos 12 discípulos, e mais tarde,
o colégio apostólico), prega o arrependimento de pecados, revela o
Pai (Jo 14.6-9), padece na cruz, ressuscita e ascende aos céus, deixando a
promessa de voltar outra vez.
Chamadas específicas, pessoais no
Ministério de Jesus
João 1.35-44 - Os primeiros discípulos
de Jesus.
(Lc 6.12-17; Jo 6.67,70-71) - A chamada dos doze – E não se pode fazer
aplicação individualizada no Corpo de Cristo. E atentar, o número doze tem uma
simbologia significativa nas Escrituras relativa a Israel e à Igreja, ou seja,
no coletivo.
Judas Iscariotes estava entre eles. Teria Judas Iscariotes sido
predestinado para ser o traidor do seu mestre por força do que estava escrito
(Mt 26.24-25), e guia daqueles que prenderiam a Jesus (At 1.16), no final do
seu ministério terreno? E enfim, levado a julgamento e condenado na rude cruz.
A profecia não predestinara quem seria o traidor nem o isentaria da sua
culpa. A profecia revelava o evento futuro, cujo fato viria acontecer no
ministério terreno de Jesus. Realça sim! a Presciência Divina.
Nos evangelhos vemos, desde o início,
no comportamento de Judas Iscariotes um mau caráter ao ponto de Jesus,
posteriormente, o chamar de o Filho da Perdição (Jo 17.12). Deus não o predestinou
para aquele triste fim. E ao lhe cobrar a culpabilidade pela
responsabilidade e consequências de seus atos, estava fazendo justiça ou injustiça?
João 6.70-71 – Judas, sendo um entre os doze discípulos escolhidos,
tristemente, se deixou ser usado pelo diabo (Ef 4.27; Tg
4.7). Estava dentro de uma chamada específica (Lc 6.12-16; Jo 15.16;
At 1.17), e comporia adiante o colégio apostólico.
João 6.37-40 - Jesus e o desenvolvimento do seu ministério.
João 6.37 – “Todo o que o pai me dá
virá a mim. O que vem mim de maneira nenhuma o lançarei fora”.
O Jesus encarnado, tudo o que fazia era
na dependência do Pai (Jo 7.28-29;10.29).
A sua doutrina era do Pai (Jo 7.16;
8.28).
João 6.44-45, 65 – A revelação do
salvador ocorria no ministério de Jesus, mediante a operação do Pai (Jo
14.10-12).
João 6.47-56 – Sendo Jesus o pão da
vida, em sentido espiritual, o seu sacrifício substitutivo na cruz teria que ser
absorvido por fé para salvação de todo que viesse a crê (Jo 6.35-36,47).
João 8.45-47 - Quem é de Deus escuta a
palavra de Deus. Não significa dizer que foram destinados à salvação
incondicionalmente.
João 7.37; Ap 22.17 - Salvação é para
quem tem sede. Quem vier a Jesus, espiritualmente, não terá fome nem terá sede
(João 6.35).
João 9.31 – Nas palavras do cego de
nascença, curado por Jesus: “Deus não ouve a pecadores, mas se houver temor e
faz a sua vontade, a esse ouve”.
João 7.3-5 - Havia incredulidade entre
os irmãos de Jesus a seu respeito.
João 12.32-33 – Jesus disse que quando
fosse crucificado todos atrairia a Ele. Mas, as pessoas poderiam crê ou não. Os
principais da nação judaica, os religiosos, foram os que mais resistiram à
revelação da salvação em Jesus (Mt 21.28-32;45-46;23.37).
Mateus 5.3 – “Bem-aventurados os pobres
de espírito, porque deles é o reino dos céus”.
Todos sabemos que o termo “pobres de
espírito” na contemporaneidade tem um sentido popular pejorativo, de miserável
de valores interiores, pessoas sem qualidades virtuosas, etc. Porém, Na
Bíblia, considerando o seu contexto geral, entendemos perfeitamente que a
expressão “pobres de espírito” se refere aos humildes. E nesta
perspectiva, o evangelho foi pregado primeiro aos pobres (Mt 11.5; Lc 7.22; II
Co 9.9; Tg 2.5; 4.6).
Pv 6.17 - Olhos altivos Deus abomina
(Pv 21.4; Is 2.11; I Tm 6.17).
Por toda a Bíblia também está em
evidência o senso de Justiça Social em torno dos mais necessitados e
injustiçados (Pv 31.9; Is 11.4; Am 4.1; Mt 5.6; Mc 10.21; Tg 5.1-6; Lc 19.8). E
diz respeito à prática do bem, ao exercício do amor e da misericórdia que
pregamos e no combate às injustiças sociais. Entretanto, a pobreza material e
social do pobre não lhe dá direito ao Reino dos Céus.
Mateus 11.25-26 – “Naquele tempo,
respondendo Jesus, disse: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, que
ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos
pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim te aprouve”.
Mediante a quem Jesus estava dirigindo
o seu discurso (as três cidades impenitentes – Corazim, Betsaida e Cafarnaum
(Mt 11.20-24), com a revelação divina nas mãos [sábios e entendidos], o que
lhes faltaram foi humildade para se arrependerem (Mt 11.20). Em Cafarnaum havia
altivez, orgulho (Mt 11.23).
Então, “aos pequeninos” compreendemos
pelo contexto, são pessoas humildes que assumem a sua pecaminosidade e se
arrependem e vem a Cristo. Destes, Deus se agrada e socorre-os (Mt 11.26; Is
61.1; Sl 34.18;51.17; Tg 4.6-7).
Mateus 11.27 – “Todas as coisas me
foram entregues por meu Pai, e ninguém conhece o Filho, senão o Pai; e ninguém
conhece o Pai, senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar”.
Jesus, na sua missão terrena,
demonstrou a sua dependência do Pai, embora tudo entregue em suas mãos pelo
Pai. De modo que, Jesus tinha a missão áurea de revelar o Pai (Mt
11.27; Jo 1.14;14.6-10), e ao mesmo tempo dependia do Pai para realizar o seu ministério
terreno e gerar “filhos espirituais” (João 6.44-45,65; 14.10).
Mateus 22.14 – “Porque muitos são
chamados, mas poucos, escolhidos”.
Mt 22.1-14 – O texto e contexto trata
da parábola das Bodas, aplicada por Jesus aos judeus de seus dias, antevendo a
sua rejeição como o Messias. Muitos judeus ficaram de fora na festa
do filho do rei (Vv. 2), por falta de dignidade dos convidados (Vv 8); outros
foram convidados (Vv. 9-10, Mc 16.15-16 - os gentios). Porém, todos deverão
estar na festa com vestes espirituais (Vv 11), vestidos da justiça de Cristo,
pela graça de Deus.
O fato de Israel, no coletivo, possuir
uma chamada/escolha soberana de Deus, desde Abraão (Gn 12.1-4), não outorga
salvação individual e automática a todos os judeus.
Mt 21.32 – Pela falta de arrependimento
e fé no Messias, Jesus foi deixando claro, por parábolas, aos judeus, que eles
estavam perdendo a bênção do Reino de Deus, por um tempo (Mt 21.42-43; Rm
11.11-12,15,25), mesmo como povo da promessa, por causa de sua incredulidade
(Mt 21.32).
Mt 21.33-46 - Príncipes dos sacerdotes
e fariseus foram considerados por Jesus lavradores maus.
Mc 16.15-16 - A salvação é ofertada,
pela pregação do evangelho a todos. Porém, serão salvos em Cristo, os que
aplicarem fé a mensagem da cruz (Rm 1.16;10.16).
João 14.6 – “Disse-lhes Jesus: Eu sou o
caminho, e a verdade, e a vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim”.
Objetivamente Jesus se declara a
verdade personificada na sua pessoa. Então, a Verdade é:
Libertadora do domínio do
diabo e do pecado (Lc 4.18-19; Jo 8.31-36);
Salvadora da condenação
eterna no testemunho de Simeão (Lc 2.10;28-31) e do próprio Cristo em João
3.16.
Redentiva nas palavras da
profetisa Ana quando falou do menino Jesus (Lc 2.36-38), e mais tarde, sendo
consumado na cruz, veio a ser a causa de eterna salvação para todos que lhe
obedecem (Hb 5.9).
Ele é o caminho exclusivo pelo qual se
chega a Deus, o Pai.
E ratificou Pedro em seu discurso de
Atos 4.12 – “E em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum
outro nome há dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos”.
Parte essencial da missão terrena de
Jesus foi para dá testemunho da verdade de Deus aos homens (Jo 18.37), e fazer
servos/discípulos (Jo 13.13), amigos (Jo 15.15) e irmãos (Jo 20.17),
santificando-os na verdade (Jo 17.17).
Mateus 11.28-30 - E sendo o Senhor, não
exercia e nem exerce domínio por opressão ou prepotência de nenhuma natureza,
seja religiosa, política ou espiritual, prática reprovável na sua doutrina,
porque era comum dos líderes religiosos de seus dias. O seu jugo
era suave e leve e exercido com humildade e mansidão.
Lucas 13.22-30 – Jesus é indagado se
eram poucos os que se salvam.
Ele deixou claro que a porta
da salvação era estreita e os homens deviam “porfiar” para entrar por ela, no
sentido de esforço, ou discuti-la entre os seus ouvintes, em especial os
judeus, os quais estavam prestes a rejeitá-lo como o Messias, pois vemos nos
versículos de Lc 13.26-30, que Jesus aponta diretamente para o histórico
judaico, quando era o povo por meio do qual Deus levava a efeito o Plano da
Salvação, tornando os derradeiros (gentios) primeiros e quem eram primeiros
(judeus), os derradeiros.
Independente de raça ou etnia, condição
material, a necessidade primária dos homens diante de Deus é de natureza
espiritual, e uma só: Arrependimento conjugada com a fé salvífica – Lc 13.1-5;
Mt 24.14.
Finalmente, o que vemos nas Escrituras
é um Deus de amor e misericórdia, tratando com a humanidade caída em três
grupos: Israel, a Igreja e os gentios. E o divisor de águas é o antes e o
depois do advento do messias, no curso da revelação divina progressiva a toda Humanidade.
E Deus sempre no propósito de levantar,
recuperar e salvar e que se havia perdido (Is 55.6-7; Lc 19.10), não para
destinar previamente pessoas à condenação por decreto soberano e deliberado.
Por Samuel Pereira de Macedo Borges
Bacharel em Direito e Teologia
Natal/RN – setembro/2020.

Releitura em reflexão
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